Os botões das relações

No mundo moderno, a maneira mais eficaz de tirar alguém da vida, apagar da cabeça e arrancar do coração, é deletando. Um botão elimina uma pessoa e esclarece as relações.

Não te vejo, não te sinto, nada sinto.

Posso ir além, te bloqueio. Esse outro botão me elimina da sua linha. Assim você não me encontra; escondo meu nome, minhas fotos, todos os meus dias.

Desse jeito a gente se esquece e a vida segue.

Não vi seu novo corte de cabelo, a mudança de emprego, nem a viagem que finalmente deu certo. Nem quero.

Pessoas novas num sopro fresco de possibilidades leves e melhores.

Sem querer, limpando os velhos emails, encontrei aquela música que você compôs pra mim, e doeu. Por um momento esqueci das brigas, do ponto final e do quanto sangrou apertar aqueles botões. Escutei de novo e realizei aonde nos perdemos. Foi logo ali. Naquela semente, num amor tão grande, plantado num vaso tão pequeno. Não coube e quebrou. Uma receita mal preparada, com tanto sentimento num lugar tão impróprio.

Naquele momento, diante daquela tela um filme passou. Não só seu, outros apareceram. Não deu pra contar ao certo, quantas chances desperdicei de colher algo lindo, grande. As vezes fui eu, outras eles, mas na sua passagem, foi você.

Regou com mentiras, alimentou com ilusões; uma terra próspera transformada em inóspita. Falta de cuidado, zelo, verdade.

Novamente o final passou. O momento em que esqueci de tudo acabou e a certeza de que eu não te queria mais brincando por aqui voltou.

Usei mais uma vez o botão e apaguei. Com certeza, no meu teatro seu filme não será mais exibido, nem lembrado.

Vivian Rabello

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